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Os Kaingang

Em tempos idos, houve uma grande inundação que foi submergindo toda a terra habitada por nossos antepassados. Só o cume da serra Crinjijimbé emergia das águas. Os Caingangues, Cayrucrés e Camés nadavam em direção a ela levando na boca achas de lenha incendiadas. Os Cayrucrés e os Kamés cansados, afogaram-se; suas almas foram morar no centro da serra… Depois que as águas secaram, os Caingangues se estabeleceram nas imediações deCrinjijimbé. Os Cayrucrés e camés, cujas almas tinham ido morar no centro da serra, principiaram a abrir caminho pelo interior dela; depois de muito trabalho chegaram a sair por duas veredas (Borba 1908:20-21).

Telêmaco Borba coletou, em 1882, o mito de origem do povo Kaingang. O mito narra a história dos irmãos mitológicos Kamé e Kairu que, após o grande dilúvio, saíram do interior da serra Crinjijimbé. Dentre muitos aspectos simbólicos dos Kaingang o mito de origem sustenta ainda hoje muitas das tradições dessa cultura. O povo entende que tudo que há na terra – plantas animais e tudo que existe, e até fora dela – a lua, o sol, as estrelas – foi gerado por um dos irmãos mitológicos. O “Sistema de Metades” existe para que haja equilíbrio e contínua reciprocidade entre os dois clãs.

O profundo respeito aos mortos e o apego às terras onde estão enterrados seus umbigos, logo após o nascimento, são expressões incontestáveis do valor estruturante da cosmologia para estes índios.

Hoje, os Kaingang vivem em mais 30 Terras Indígenas nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e pelo leste das Missões Argentinas. A língua Kaingang pertence à família Jê do tronco linguístico macro-jê, divididos pela linguista e missionária do SIL (Summer Institute of Linguistics) Ursula Wiesemann em cinco dialetos, que se diferenciam em várias partes de sua estrutura, sendo as mais visíveis às fonológicas.

Os Kaingang do oeste de São Paulo

Os Kaingang chegaram ao sul e sudeste do Brasil há 3.000 anos. A história desse povo em São Paulo pode, então, ser contada a partir daí. No planalto ocidental paulista ocupavam as terras mais altas dos campos de cerrado, entre os rios Tietê e Paranapanema, vales e espigões, margeando os rios Tietê, do Peixe, Aguapeí/Feio e Paranapanema.

Mil novecentos e cinco foi o ano em que o conflito entre os Kaingang e não índios se intensificou no oeste paulista, devido ao início da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Os Kaingang defendiam o território onde viviam e os não índios lutavam pela posse privada das terras, motivados pela expansão cafeicultora. Os indígenas destruíam a linha do trem em construção para amedrontar. Os não indígenas contratavam bugreiros para eliminar os Kaingang por meio uso de armas ou contaminação por doenças o que causou a morte em massa. A disputa se encerrou em 1912, com a “pacificação” dos Kaingang e confinamento deles em reservas vigiadas e controladas. Em 1912 foi criada o Posto Indígena Icatú (Braúna) e em 1916 a Aldeia Pirã, ou P. I. Vanuíre (Arco-Iris).

Estima-se que 90% da população Kaingang foi exterminada entre 1905 e 1921. Em 1921 foram contados 173 indivíduos entre os Postos de Icatú e Vanuíre.

Para saber mais

Enciclopédia dos Povos Indígenas. Instituto Socioambiental. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kaingang.

RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização. A integração das populações indígenas no Brasil moderno. 2a ed. Patrópolis: Vozes, 1977.